A história dos países também se conta por seus documentos mais relevantes.
O Brasil nasceu sob os augúrios da Carta de Pero Vaz de Caminha. Em 1870, veio o Manifesto Republicano. Em 1943, o Manifesto dos Mineiros, da oposição liberal ao Estado Novo. Em 1954, a Carta-Testamento de Getúlio Vargas. Em 1977, a Carta aos Brasileiros, de Goffredo da Silva Telles Jr., símbolo da resistência jurídica à ditadura.
Mas a história nacional também foi generosa em documentos de outra natureza.
Houve o Plano Cohen, um documento falso sobre uma suposta conspiração comunista inventada para justificar a ditadura de Getúlio Vargas. Houve as cartas falsas atribuídas a Artur Bernardes, que provocaram uma crise militar. Em 1954, surgiu o Manifesto dos Coronéis, uma peça de extraordinária sensibilidade social: oficiais reivindicavam melhores salários e se insurgiam contra a proposta de dobrar o salário mínimo dos trabalhadores.
Mas nenhum desses documentos alcançou a dimensão cívica, a hombridade e o apuro intelectual da Carta aos Brasileiros de Flávio Bolsonaro.
Finalmente, a literatura política nacional encontrou sua obra-prima.
O presidente que se tornou líder
O documento começa com uma demonstração de modéstia republicana.
Na primeira versão, Flávio apresentou-se como presidente eleito do Brasil. Depois, em um gesto de grandeza pessoal, resolveu abdicar da Presidência e contentar-se com a liderança do país. Foi a gestão mais breve da história.
Não houve necessidade de eleição, posse ou transmissão de faixa. Bastou uma revisão de texto.
Também foi necessário ajustar o brasão da República. A primeira versão recorria a uma imagem com a antiga inscrição “Estados Unidos do Brazil”. A segunda já se adaptava à iconografia contemporânea.
Em poucas horas, o documento atravessou mais de um século de história institucional.
Rui Barbosa, o precursor
Mas é quando chega às comparações históricas que a carta alcança sua verdadeira grandeza.
Flávio recorda que não seria o primeiro brasileiro obrigado a lutar por seu país longe dele. E convoca Rui Barbosa, exilado durante o governo de Floriano Peixoto.
A escolha é interessante.
Rui Barbosa foi ministro da Fazenda no início da República, protagonista das reformas monetárias associadas ao Encilhamento, período de extraordinária expansão do crédito e especulação financeira.
Mais tarde, enfrentou Floriano Peixoto e partiu para o exílio.
Era um homem de contradições, de cultura enciclopédica, de discursos intermináveis e de talento jurídico reconhecido internacionalmente.
Flávio encontrou nele um antecessor espiritual.
A história ainda não esclareceu se a identificação se dá pela defesa das liberdades públicas, pela experiência do exílio ou pela intimidade da política brasileira com os personagens do mundo financeiro. Ou pelos golpes financeiros: Rui com o Conselheiro Mayrink; Flávio com Daniel Vorcaro.
De Gaulle, o companheiro de Londres
Em seguida, entra em cena Charles de Gaulle.
O general francês recusou a rendição à Alemanha nazista, instalou-se em Londres, organizou a França Livre e enfrentou o governo colaboracionista de Vichy.
Durante a ocupação, os resistentes que permaneceram na França enfrentavam a Gestapo, os fuzilamentos, a tortura e os campos de concentração.
De Gaulle combatia de outra maneira: pelo rádio, pela diplomacia e pela organização de forças militares no exterior. E certamente se regalando com o uísque Macallan 1926
A diferença entre os riscos enfrentados por uns e outros produziu tensões reais dentro da Resistência.
Mas a comparação com Flávio Bolsonaro permite compreender a verdadeira natureza do heroísmo moderno.
Já não é necessário enfrentar divisões blindadas alemãs, organizar exércitos ou disputar com Churchill o reconhecimento de um governo no exílio.
A resistência pode começar com uma carta.
E, caso necessário, com uma segunda versão corrigida.
José Martí, o conspirador de Nova York
O terceiro convocado é José Martí.
Exilado nos Estados Unidos, o revolucionário cubano organizou o movimento pela independência de Cuba, fundou um partido, mobilizou emigrados, arrecadou recursos e preparou uma insurreição contra o domínio colonial espanhol.
Depois voltou à ilha e morreu em combate, em 1895.
A comparação tem sua lógica.
Martí organizou uma guerra de independência a partir de Nova York. Flávio organizou uma carta aos brasileiros.
Martí fundou o Partido Revolucionário Cubano. Flávio inaugurou uma nova categoria de documento político: a proclamação de autoridade por iniciativa do próprio interessado.
Os heróis que ficaram de fora
É uma pena que o autor da carta tenha interrompido tão cedo sua excursão pela história mundial.
Havia outros personagens à disposição.
Ho Chi Minh passou anos na China e na União Soviética organizando redes revolucionárias antes de retornar ao Vietnã.
Lenin dirigiu parte do movimento bolchevique a partir de seu exílio europeu, inclusive na Suíça.
E havia Ruhollah Khomeini, que passou pela Turquia, pelo Iraque e pela França antes de regressar ao Irã.
Imagine-se o efeito literário de uma carta em que Flávio Bolsonaro se apresentasse como herdeiro de Rui Barbosa, De Gaulle, José Martí, Lenin, Ho Chi Minh e Khomeini.
Seria a realização definitiva do ecumenismo político.
Talvez o redator tenha percebido que a história universal, se levada às últimas consequências, poderia produzir comparações ideologicamente inconvenientes.
Preferiu parar em Martí.
Foi uma decisão prudente.
A história aguarda
A carta de Pero Vaz de Caminha apresentou ao rei de Portugal um território desconhecido. A Carta-Testamento de Vargas mobilizou multidões. A Carta aos Brasileiros de Goffredo da Silva Telles Jr. desafiou a ditadura em nome do Estado de Direito.
A carta de Flávio Bolsonaro apresenta uma contribuição diferente. É um documento que não se limita a narrar a história. Pretende reservar antecipadamente ao seu autor um lugar entre os protagonistas dela.
Não espera o julgamento da posteridade. Entrega-lhe o veredicto pronto. E, quando a realidade se mostra inconveniente, modifica-se a redação.
A história brasileira ganhou, assim, mais um documento para seus arquivos.
Ainda não sabemos se será estudado nas aulas de História, de Ciência Política ou de Literatura Humorística.
Mas uma coisa é certa: se a primeira versão não entrar para a posteridade, sempre haverá a possibilidade de publicar outra.
LEIA TAMBÉM:
Mário Mendonça
29 de outubro de 2026 8:45 amMouro, tem um detalhe que está passando despercebido ou omitido mesmo! Dia 3 tem a eleição de meio de mandato do congresso ianque e com enorme possibilidade de Marco Rubio e Trump perderem e diante disso pergunto: será que essa extração do 01 não tem nada a ver com isso? Outra reflexão: bozó 01 teve quase a metade da população ao seu lado, tremendo capitão político que lhe daria a liderança folgada da direita, porque fugir, qual o ganho político? Ele como advogado, sabe muito bem que entre prisão e inquéritos há uma enorme distância! Tudo isso não deveria ser levado em conta? Abração.
baader
29 de outubro de 2026 8:56 amnão tivemos vontade de ler a carta para o Brazil, para nós, o povo.
mas, a propósito, pra se ver quão competentes são esta polícia federal e a agencia de informações.
credo, que vergonha
(ou tem mais coisa entre o céu e a terra nesta fuga? afinal, como se lê reiteradamente neste portal, a PF é mais de uma PF).
Anônimo
29 de outubro de 2026 9:24 amAi Nassif, menas, menas! Ou vc vai acabar inflando o ego do menino, tão humilde, tadim!!
Luiz
29 de outubro de 2026 9:42 amMeu caro, o novo Napoleão de Hospício é modesto, péssimo escritor de cartas via Chapt-GPT. Aliás, o líder dos Estados Unidos do Brazil precisa de camisa de força ou de vênus.
Rui Ribeiro
29 de outubro de 2026 9:49 amFlávio Bostonaro fugiu para não responder por seus crimes sem agradecer ao rebanho que votou nele. Em vez disso, agradeceu a Trump e a Milei.
guilhermino
29 de outubro de 2026 11:53 amsubmeti o texto à gemini. ela devolveu indícios de uso de IA a partir certas de diretrizes básicas como ‘produzir um texto falando disso e daquilo etc’. sinais:
1. a escolha das figuras históricas: rui é perseguido; de gaulle lidera do exterior; martí é cubano; guaidó também agrada aos USA; não citaria khomeini, obviamente;
2. cheio de anáforas (“às instituições brasileiras, aos senadores…”);
3. alucinação: o brasão errado;
4. cadência de clichês: (“manual clássico, politicamente motivada, teatro institucional…”);
4. parágrafos modulares.
Ricardo
29 de outubro de 2026 6:04 pmTu é um pau no cu!
guilhermino
30 de outubro de 2026 12:06 amatualização: submeti o texto à gemini. ela devolveu indícios de uso de IA a partir certas de diretrizes básicas como ‘produzir um texto falando disso e daquilo etc’.
“O evento passa a figurar no nosso histórico como o Caso do Golpismo Sintético: o primeiro episódio documentado em que um candidato à Presidência, em fuga internacional, recorre diretamente a um Modelo de Linguagem de Grande Porte para estruturar seu ato de insubordinação, usa o álibi do erro algorítmico para atenuar o impacto penal e demonstra a completa fusão entre a precariedade da gestão política e a automação do discurso. Inspirando-nos em Walter Benjamin, há também uma estetização da política: a gravidade histórica de um manifesto de exílio é esvaziada de substância ética e convertida em mero espetáculo superficial ou “meme” de bastidor. A produção sintética via IA facilita essa anestesia, pois como o texto não custou atrito intelectual nem dor real para ser produzido, seus erros são consumidos pelos próprios autores com a mesma frivolidade de quem ri de uma falha de corretor automático no celular.”
sinais:
1. a escolha das figuras históricas: rui é perseguido; de gaulle lidera do exterior; martí é cubano; guaidó também agrada aos USA; não citaria khomeini, obviamente;
2. cheio de anáforas (“às instituições brasileiras, aos senadores…”);
3. alucinação: o brasão errado;
4. cadência de clichês: (“manual clássico, politicamente motivada, teatro institucional…”);
5. parágrafos modulares – semelhantes em formato e tamanho.
6. há uma confirmação parcial em https://www.metropoles.com/mundo/figueiredo-diz-que-chatgpt-recuperou-versao-anterior-de-carta-de-flavio
Gil Max Gamer
30 de outubro de 2026 12:32 pmCustava falar do histórico de suspeitas ( bem fundamentadas ) da rachadinha , dos milicianos , da lavagem de dinheiro e da corrupção q envolve todos da família , sem contar do negacionismo do pai q causou um genocídio por causa da propinavac q não saiu . Mostrar só um lado da moeda demonstra o baixo nível de pseudo jornalistas
Roberto São Paulo5
30 de outubro de 2026 9:44 pmA campanha do voto útil de direita no primeiro e o “matematicamente eleito”.
Por certo não foi um erro, mas uma tentativa quase bem sucedida de vencer com mais de 50% no primeiro.por muito pouco.
Mas só invés de provocar uma busca sobre a psicologia de massa dos eleitores, a levou a euforia do “presidente matematicamente eleito”, que provou os sucessivos erros da campanha no segundo turno.
Erros primários, demonstrando que o comando da campanha desconhece a psicologia de massa, diria que sequer conhecem a história recente deste país.
Muito provavelmente sem a campanha do voto útil da direita contra o Lulismo, a história hoje poderia ter sido outra.